Header

Anuncie
Literatura

Um delírio de cinco gramas de cogumelo e meio NBOME

Quando a badtrip se instala após um uso inconsequente de substâncias.

arte de destaque por Lauralai

Estava em fogo, eu juro! Mas não havia chamas, apenas eu, preso dentro de minha própria mente, desgostoso com a vida, desejando a morte para sair daquela confusão, beirando a loucura.
O momento acima retratado, psicouvinte, ocorreu noventa minutos após comer cerca de cinco gramas de cogumelos secos. Neste meio tempo, me foi cedido metade de um suposto ácido, que minutos depois se mostrou falso, quando o desespero instalou-se.
Anote esta informação e me acompanhe. Retornemos ao princípio da anedota, um momento estúpido e no mínimo inconsequente.
Estávamos na casa de um novo amigo. Eu, o hospedeiro e outros dois indivíduos. A ocasião um culto até então habitual: tomaríamos cogumelos, beberíamos algumas cervejas e a noite ficaria por isso. A previsão: gargalhadas e alucinações. Uma ocasião habitual, porém a presente possuía em sua essência algo de extraordinário.
Passamos a ingerir os fungos. Cerca de trinta minutos ou mais foram necessários até que todos finalizassem seus desafios; se você, amigo leitor, sabe do que me refiro, imagine o gosto horrendo por dois quartos de hora. Terrível!, terrível!
Cinco gramas para cada. Um delírio inédito, estávamos até mesmo ansiosos. Nos primeiros trinta minutos nada. Até que o primeiro alerta chegou em mim, batendo em meus semelhantes logo em seguida, como se houvesse um senhor comandando toda loucura, a tocar um por vez, regendo a orquestra. Um formigamento interno, um ainda breve êxtase, a primeira chama do incêndio, a gota mãe dos oceanos.
Espalhou-se. As risadas tornaram-se constantes, éramos imbecis, e dois dos amigos haviam jurado, sim, jurado!, que conversaram com um morcego no banheiro.
A loucura foi publicada. Eis a primeira construção de vossas mentes entorpecidas.
Os fanáticos voltaram ao banheiro. Ficaram ambos na porta, metade do corpo para dentro e outra metade para fora. Eles realmente falavam. Apontavam, gesticulavam e como nobres cavalheiros aguardavam pacientemente e em silêncio a resposta do morcego.
Acompanhado do irmão cético gargalhei, até o energúmeno causador de discórdias sacar da carteira um pequeno quadrado. Supostamente lsd. No desenho um urso. Apenas um urso e nada mais. Desconhecido, moreno, risonho e convidativo. Não poderia recuar, não sou de espécie tão covarde. Saboreei minha metade por cerca de dez minutos.
O que foram os primeiros minutos das sensações atônicas! Uma eterna delícia. Divertida e graciosa, rica em amizade e bom humor. Tive minhas primeiras alucinações quando constatei ser o tapete um grande rio de cobras, que rastejavam em círculos repetitivos. Ao meu lado todos amigos radiantes, incapazes de conter o riso, tentavam conversar, mas apenas riam de seus delírios individuais. Esplêndida fuga da realidade, até o NBOME bater neste que vos escreve.
Passei a escutar um som distante, instrumental e suave, que me roubou dali. A mente foi para longe, pensei em todas as saudades e em todos desgostos, me senti estranho àquele momento e o sorriso esvaiu-se por entre os dedos de minha mão surrada pelo fracasso. Fiquei em silêncio e reflexivo. Perguntaram-me se estava bem: “Me tira daqui.” Respondi. Estava trêmulo e com frio apesar da alta temperatura. Os olhos emocionados ilustravam a dor interna, os sentidos perdidos, cada qual com um delírio distinto.
Deitei.
Vieram todos até mim, alarmados, nobres amigos: “Você está bem?”
“Me tira daqui, me tira daqui.” A angústia era forte demais.

Esfreguei os olhos, mantendo-os fechado por um tempo: “Me tira daqui, me tira daqui.” Tornei a sussurrar.
Enxergando novamente, fitei a TV que estava desligada. Não emanava um som, não produzia nenhuma luz e nela eu encontrava meu reflexo. Decadente, desesperado, pela primeira vez na vida desejando a sobriedade, tive a pior alucinação de minha história: meu reflexo na TV levantou-se. Pôs-se sentado no sofá, me fitou nos olhos e disse: “Você vai ficar assim para sempre.”
“Não! Não!” Entrei em desespero.
Comecei a chorar, o rosto afogado em uma almofada, “me tira daqui, me tira daqui”, a mente uma grande confusão, os raciocínios perdidos, a valentia ausente, todos sentidos indignos de confiança.
Dois amigos retornaram. Pude escutar um deles perguntar baixinho ao outro, preocupado, desejando me privar da dúvida: “Será que ele vai voltar?”
“Espero que sim. Se não o que vamos falar para a mãe dele?”
Eis a última coisa que me recordo. Acordei cerca de dezessete horas depois, no mesmo sofá, a mente ainda perturbada, porém um pouco mais ciente. Detalhei o espaço, lugar rico em loucuras e agonias: recordei meu sofrimento, a dor…e a alegria inicial do delírio apenas oscilou no horizonte, sem grandes perspectivas ou efeitos.
Desde então, passo a observar a vida com visão destorcida, cético. Logo, recomendo: não façam isso em casa. Não façam isso em lugar nenhum.

(Para mais textos, curta a página; clique aqui.)

Comente também!

comentários

Clique para Comentar

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Psicodelizando é mantido pela Psicodelia Minha Doce Esquizofrenia, um portal criado para compartilhar ideias, experiências, arte e ativismo. Estamos em conformidade com a lei e não fazemos apologia a nenhum tipo de substância.

Siga-nos

CIMA