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TROMBETA: Uma visão ancestral

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Contemplação ancestral da Trombeta: uma planta cheia de mistérios.

                                                                                                                                                                   Por Rebecca Bezerra

*NÃO RECOMENDAMOS O USO DESTA PLANTA*

Muitas dúvidas e enigmas cercam esta planta da família das solanáceas, da qual são integrantes também tomates, berinjelas e batatas.  A “Trombeta”, reconhecida por suas pequenas árvores com flores longas e com uma variedade maravilhosa de cores, é muito difundida como uma planta perigosa e tóxica, devido as suas propriedades anticolinérgicas que podem ser incapacitantes e paralisantes, se usada de maneira errada. Aprofundando nesta misteriosa planta, podemos ver que muitas informações incompletas são repassadas, consequentemente assustando ou despertando o interesse do uso (na grande maioria uso abusivo) desta planta.

Qual a diferença entre: Datura, Belladonna, Brugmansia e Brunfelsia?

Originalmente havia apenas um gênero Datura, porém por volta dos anos 70 devido a grande variedade de espécies do gênero, este foi dividido em Datura e Brugmansia. Em geral, as daturas são menores, enquanto brugmansias são árvores e arbustos de grande porte, conhecida como “Datura de árvore” é uma variedade tropical e tem uma longa história de uso xamânico na América do Sul, sendo frequentemente incluída como ingrediente na mistura de Ayahuasca e também adicionada ao chá de San Pedro. Brunfelsia é outra espécie da América do Sul e Índias Ocidentais. São de fácil reconhecimento, aqui mesmo na minha cidade vejo várias na rua, de várias cores e flores lindas voluptuosas. Belladonna é o nome popular dado à espécie Atropa Belladonna, também da família solanacae, esta tem uma aparência diferente das citadas anteriormente. (vide foto)

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Datura metel

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Atropa belladonna

Sem importância qual delas há interesse, pois todas elas contêm propriedades parecidas, ressaltando do perigo do uso fora do contexto medicinal.

 

A VISÃO RITUALÍSTICA

Adivinhação, envenenamento, ritual de passagem, agradecimento, cura de enfermidades… Diversas são as utilidades e finalidades deste arbusto, de acordo com vários povos antigos de muito antes de haver esta busca dos jovens pelos delírios recreativos desta planta, povos que aproveitavam suas propriedades para diversos fins, como por exemplo, povos da América do Sul em lugares como a Amazônia e os Andes; também foi relatado o seu uso no sudoeste dos EUA e México antes da colonização.  Fugindo de seu mais conhecido nome “Erva-do-Diabo”, iremos conhecer algumas outras denominações e histórias antigas desta planta. Contudo, nossa literatura é muito limitada, e existem poucos registros sobre as tribos que utilizam Datura até hoje.

Alguns exemplos desses povos que utilizam Datura em contexto religioso ou medicinal são:  Os Chibchas, Chocos, Inganos, Kamsas, Sionas, Kofans da Colômbia; os Quéchuas da Bolívia, do Equador e do Peru: os Mapuche-Huilliches do Chile; e os Canelos, Piojes, Omaguas, Jivaros e Zaparos. Estes são apenas os que foram reportados e há registros, acredita-se que existam muitas outras tribos que consideram a Datura uma planta sagrada. Sem muita precisão de preparo e espécies usadas, temos alguns exemplos abaixo do feitio ritualístico em algumas tribos:

 

Jivaros

Os Jivaros, conhecidos como o povo das Cascatas Sagradas, são aborígenes que vivem entre Perú, selva Amazônica e Equador e cultivam plantas enteógenas para fazerem suas bebidas sagradas, incluindo Natema(Ayahuasca) e Maikoa (Datura). Este povo utiliza Natema para adentrar o mundo de Arutam, que acreditam que é mundo sobrenatural, e utilizam Maikoa (Datura) que é considerada por eles ser mais perigosa e mais forte, e a usavam como preparação para ir à guerra, consultando os espíritos antes de partirem. De acordo com o investigador e antropólogo que esteve com essa tribo, Michael Harner, é tomado para viagens espirituais a fim de encontrar o sobrenatural, mas não é usado na cura, porque os efeitos são tão incontroláveis que o xamã não pode reter seus laços com este mundo, ao viajar no outro.

Shawnees

Os Shawnees, uma das várias tribos algonquianas, usavam Wysoccan (Datura) em rituais de iniciação com seus jovens, para iniciarem a fase adulta. O ritual dava-se após um tempo de retiro com uma dieta alimentar dada pelo xamã, e então, provocando então com suas propriedades os jovens, que entravam em um transe com sensação de morte e renascimento, estando assim, preparado para uma nova fase de vida, que incluía o esquecimento do seu próprio idioma e ruptura de laços familiares. É como se realmente fosse uma nova vida a partir daquele momento. Os Huichol também fazem rituais desta maneira, como se fosse uma passagem para a vida adulta, esquecendo-se de sua vida juvenil.

Zunis

Os Zuni são uma tribo nativa norte-americana aonde se concentra nos dias atuais no México. Esta tribo administra o pó da raiz de Datura, que a chamam de “A’neglakya” e a utiliza como anestesia em cirurgias, também aplicam em feridas para a cura. Nos dizeres ritualísticos, os Zuni usam Datura par fins cerimoniais e mágicos (adivinhação), como por exemplo, ministrar parte da raiz para alguém que foi roubado, com fim de descobrir a identidade do ladrão. O pó também é usado para atrair chuvas abundantes.

Chibcas

Os Chibcas eram um povo da época pré-colombiana, estes utilizavam as sementes de Datura para promover um estado de inconsciência profunda nas esposas e escravos de guerreiros e chefes que foram mortos, antes deles serem enterrados vivos para acompanhar seus companheiros e mestres em uma última viagem.

Os astecas usavam a droga Toloatzin ou Toloache (Datura) na adivinhação e prognóstico; outras tribos ainda usam essa e outras espécies de Datura para feridas e lesões internas, como uma preparação para a caça, em rituais de chuva dança e rituais de puberdade, e acima de tudo na feitiçaria. Estas tribos relatadas são poucas das várias que até hoje utilizam Datura para fins medicinais, terapêuticos e religiosos.

EFEITOS E RELATOS

Um escritor em 1846 descreveu esta observação no Peru:

 “O nativo caiu em um estupor pesado, seus olhos fixos vagamente no chão, sua boca convulsivamente fechada e suas narinas dilatadas. Ao longo de um quarto de hora, seus olhos começaram para rolar, a espuma tirou da boca e todo o seu corpo estava agitado por terríveis convulsões. Após esses sintomas violentos terem passado, durou um profundo sono de várias horas de duração, e quando o sujeito se recuperou, ele relatou os detalhes de sua visita com seus antepassados ​​”.

Seu entendimento científico é “delirante anticolinérgico”, entenda:

Estas plantas não são geralmente consideradas como psicodélica, embora tenham muito em comum, historicamente, culturalmente, e farmacologicamente com outras drogas/plantas utilizadas por seus poderes de alteração da mente. Elas têm ação anticolinérgica, que bloqueiam a ação da acetilcolina, uma substância transmissora do nervo que controla a contração dos músculos esqueléticos e também desempenha um papel importante na química do cérebro. Elas são chamadas de delirantes porque os seus efeitos em doses elevadas incluem discurso incoerente, desorientação, delírios e alucinações, muitas vezes seguida de depressão e amnésia durante o período de intoxicação.

Os delirantes anticolinérgicos clássicos são os alcaloides da Datura, Belladonna e Brunfelsia:

Os alcaloides da Belladonna, Datura e Brunfelsia são fortes e incapacitantes se usado de forma errada – os efeitos físicos muitas vezes são desagradáveis, e a perda de contato com a realidade ordinária é completa – que são apenas usados com grande cautela e raramente por prazer. Pelas mesmas razões, ironicamente, elas não são considerados como um problema de abuso de drogas e podem ser compradas em pequenas doses sem prescrição como sedativos e comprimidos para a asma, resfriados, enjoos e até cólicas menstruais. Ele ainda é vendido em mercados mexicanos como um afrodisíaco e medicina. Estes alcaloides são atropina, escopolamina, e hiosciamina.

Quero experimentar… E agora?

Jovens psiconautas devem ter muita cautela ao despertar o interesse por esta famosa planta, como citado e ressaltado, seus efeitos fora do contexto tribal/medicinal é perigoso, pois não há como se saber a dosagem a ser ingerida, pois esta varia de cada espécie, e não só isso, varia também de acordo com o clima e solo em que está, portanto, não incentivamos o uso recreativo. Outra observação a ser feita é que seu uso recorrente pode trazer danos à longo prazo a saúde, tais como convulsões, coma, e até danos permanentes no cérebro. Várias das tribos citadas acima no texto relatam que já houve mortes em seus rituais de passagem que utilizavam Datura.

*NÃO RECOMENDAMOS O USO DESTA PLANTA*

 

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