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Literatura

Sobretudo, sua delicadeza era violenta

violenta

“Dou o nome de violência a uma audácia em repouso apaixonada pelo perigo. Pode ser percebida num olhar, num andar, num sorriso, e é dentro de nós que ela produz redemoinhos.”
Jean Genet, em Diário de um Ladrão

 

A forma como a noite começou, a forma como ela continuou e a forma como ela acabou podia ser resumida num blues ruim do século XX. Com aventuras malditas e mortes desnecessárias, ciúme e uma espécie violenta desmedida, causada pela falta de amor por si mesmo e pela falta de amor à aquela humanidade, que todos nós defendemos na juventude, mas nos esquecemos na velhice. Meu erro foi ter assumido a violência em primeiro lugar, e todo o inferno que caiu sobre mim após essa noite, foi causada pela minha própria paixão pelo perigo. Em resumo, a merda toda é assumir a forma que nós somos, sem temer as consequências do que virá a seguir, naquela curva.

Dante dirigia o carro, enquanto ouvíamos qualquer coisa entre Hank Williams e Johnny Cash — um country obscuro e sem autor óbvio — saíamos de uma das piores transações que tinhamos feito desde nosso primeiro (e último) assalto. Tínhamos tomado um golpe violento de um dos delegados de San Pedro. Praticamente toda nossa carga de cigarros e uísques falsificados tinham sido apreendidas no galpão de velha San Pedro, no porto. Dante sentia um ódio profundo, o Delegado Pinheiro tinha sido um filho da puta e acabou tomando boas centenas de milhares que tínhamos na carga. Coisa de policial ferido. Imagino que ele estivesse naquele momento sentado, com um puta charuto tomando uma garrafa de uísque, gozando com o meu pau, com aquela carga. Sentia meus olhos queimarem, Dante não falava nada, era tudo uma cena ruim de um filme B. O calibre 38 na minha mão tremia, com raiva daquilo tudo e querendo mesmo arrancar a cabeça do Pinheiro. Não podíamos fazer nada e a impotência é capaz de matar um homem mais rápido que o desgosto.

Dante me deixou em casa, parou o carro na calçada e eu entreguei o revólver.

— Fica com essa porra. É capaz d’eu dar um tiro em alguém se ficar com isso hoje.

Dante segurou o aço frio e jogou no portaluvas.

— Tudo o que vai, volta, Valente. Aguenta as pontas, vou descobrir quem caguetou a carga pro Pinheiro.

Fechei a porta e saí dizendo: “Vai, vai, vai… porra”.

Na rua, um carro desconhecido parado. Um kadet preto bem alinhado e conservado. Acendi um cigarro passando pela porta e ouvi barulhos lá dentro.

— Amor, cheguei.

Ouvia sons no quarto, mas não sabia distinguir o que eram. Peguei uma faca na cozinha, aquele carro parado em frente à minha casa me dava um mau pressentimento. Qualquer coisa dando errado, num dia ruim, é possível. Com o cigarro no canto da boca abri a porta do quarto, enquanto os dois tentavam se esconder da vergonha. Bárbara e Bernardo, o ladrãozinho mais chulé de San Pedro. Anos antes, Dante e eu havíamos espancado ele e seus irmãos num bar do porto velho, depois de causarem confusão com Victor, meu amigo e advogado. Bernardo vivia de roubos de carga, caminhões cheios de coisas, eletrodomésticos e até roupa de cama. Era impossível respeitar um ladrão que roubava roupa de cama. Como se isso valesse alguma coisa. Me sentia muito mais do que traído, a humilhação era pior, Bernardo era um magricela que não sabia nem limpar o próprio revólver, seus irmãos faziam tudo. Ele só pegava a arma e andava atrás deles. A guampa pesa mais quando você conhece o sujeito, e sabe que ele não é metade do homem que você é.
Antes que eu pudesse formar qualquer raciocínio, já estava em cima dele, com chutes e pontapés. Sem nenhuma cerimônia, enfiei a primeira estocada. A faca entrou até a metade no fígado e saiu vermelha. Bárbara gritava, mas eu tinha tanta raiva que mandei que calasse a boca e continuei. Uma, duas, três, quatro, cinco… Fui abrindo o corpo de Bernardo com uma faca de carne, entrava e saía com facilidade. Faca afiada na mão de um mecânico forte, elas entram e saem, como se atravessassem o vento. O sangue ia esguichando de um lugar ou outro, sujando minhas mãos, minha camisa. Não tive nenhum receio, sentia só a raiva vazando de mim, como o sangue vazava dele.

Talvez, num outro dia, eu não tivesse reagido daquela forma. Mas a miséria do homem é ser pego no dia ruim; eu digo que talvez não tivesse feito, mas acabei fazendo. Bárbara sentiu medo, eu senti raiva, Bernardo sentiu a morte. Deixei a faca no chão e fui até o banheiro, lavei as mãos e acendi outro cigarro. Aquele que eu havia acendido, quando entrei em casa, estava numa poça de sangue no chão. Bárbara soluçava, apavorada. Eu não tinha medo, mas tremia, sentia que havia feito algo ruim e sabia que o inferno viria por mim. Logo atrás, no meu calcanhar. Não queria ser pego em flagrante, então peguei as chaves do carro e saí assim que terminar de lavar as mãos.

No carro, liguei na mesma rádio, algo Hank Williams e Johnny Cash, como uma trilha sonora. Ou talvez eu estivesse num delírio, ouvindo qualquer coisa que encaixasse naquele momento. Por alguma razão, tudo foi como um segundo na minha cabeça e, no outro, eu estava há 30 quilômetros, do outro lado da cidade. Entrei no bar do Bocão e pedi um conhaque, ele viu minhas mãos manchadas ainda, minha camisa suja. E sussurrou pra mim:

— Não quero problema, aqui. Ok? Um conhaque e você vaza, Valente. Não quero te ver morto.

Eu engoli o conhaque e quase engoli o copo junto. A tremedeira não tinha passado. A raiva sim. Mas alguma coisa no meu estômago dizia que eu ia pagar caro por aquilo. Os irmãos do Bernardo iam me pegar, e eles tentaram. Naquela noite mesmo, depois que a polícia me alcançou no motel da Cilene, soube que os irmãos do Bernardo tinham rodado a cidade me procurando. Victor me disse que me juraram de morte. Hoje ou daqui 30 anos, quando eu sair da cadeia.
São três horas da manhã, na minha cabeça. E tudo o que eu lembro são dos tiros que eu levei. Eles me pegaram, finalmente. Demoraram, mas acho que conseguiram. Ouça, Valente, as sirenes. As pessoas assustadas, o seu sangue vazando. Toda a violência vivida, paga com três buracos no corpo. E a culpa toda é de alguém, alguém te caguetou naquele dia, com a carga. Alguém te caguetou agora, com os irmãos da tua vítima.

Lealdade anda em falta, e a falta dela, cobra caro. E sempre nas piores horas.

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