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Literatura

Redenção em San Pedro

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“Necesita aguardiente y tabaco, habla con los muertos y los demonios. Que le abren el camino. Pero cobran caro.” Pedro Juan Gutierrez

Hoje é um dia especial. É o dia em que estou sendo solto, depois de seis anos numa jaula, sendo tratado como animal. Dormindo em pé numa cela super lotada, com homens tão fodidos e fracassados quanto eu; outros simplesmente maus demais pra viverem lá fora. De alguma forma, a vida não perdoa nossos erros… não erre jamais, filho. Eles sempre estarão lá, esperando, no primeiro deslize e você tá fodido, foi assim comigo… vai ser assim com você também. Os caras da cela fazem uma pequena festa sempre que algum detento é solto. Cantam uma música improvisada, sobre uma nova vida lá fora… uma vida que nós não sabemos se vai ser possível, ou não. Normalmente, os bons não voltam. Os maus entram e saem do sistema prisional invariavelmente, sempre com um crime novo ou dois. Eu espero não voltar, guardei o melhor de mim durante esses anos e sei que posso ser outra pessoa.

Antes da minha soltura, cada um deles me dá um abraço. Fazem seus votos por uma vida melhor, por liberdade e me desejam sorte. A prisão é dura demais, mas existe ternura. Existe um respeito que eu não conheço lá fora, entre as paredes da prisão somos todos irmãos, alguns nem tanto. Os caras mais violentos se isolam, os que são criminosos sem convicção do crime, se abraçam. Me oferecem um copo de plástico, com aquela receita de aguardente tirada da lavagem que o Julião rouba da cozinha. Cachaça amarga, um cigarro e um misto de felicidade e inveja no olho de cada amigo que fica, enquanto os agentes da penitenciária me levam pelos corredores.

O frio do corredor escuro não me parece tão ruim, agora. O cheio úmido de suor e homens abarrotados em cubículos. As camisas amarradas nas grades servindo de cortina, os sons de radinhos à pilha, um narrador de futebol da rádio AM narrando um clássico do campeonato… então a luz. O pátio da penitenciária. Lá no alto escrito em letras garrafais, meio sujas pelo tempo: PENITENCIÁRIA DE SAN PEDRO. A Sin City latino-americana. Pouca coisa de bom brota dentro dessa cidade, talvez só no alto da colina onde moram os ricos e a socialite menor. Meu advogado me espera na porta, com seu Honda novo.

— Conseguimos, Valente. Você tá livre, o que acha? — ele me oferece um cigarro.

— Sinto o vento nas minhas costas — eu respondo, com um sorriso ainda desconcertado.

Poderia estar sonhando, se aquilo tudo não tivesse um grau de realidade que me convence de que é tudo real. Eu estou livre e tenho um Marlboro vermelho entre os dedos. Diferente dos cigarros contrabandeados da cadeia, o tabaco tem um sabor de verdade. Victor, meu advogado e amigo há muitos anos dirige o Honda pra fora da zona portuária, onde fica a penitenciária. O cheiro do mar é o cheiro que senti durante seis anos dentro daquela cela. O barulho do mar, o som que os navios que vem e vão conforme o fluxo do mercado, o som desses pássaros cretinos que roubam qualquer tripa perdida no cais. Eu tenho pavor de pássaros, odeio o som de asas batendo, mas agora eles parecem a própria liberdade cantando uma música melancólica pra mim. Eles são todos meus, e eu agora também sou livre.

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