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Psiconáutica como prática de cuidado, imersão em si e militância!

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O termo psiconauta remete ao “astronauta” da consciência e vem sendo usado como sinônimo daquele que utiliza um psicoativo o ao mesmo tempo em que observa a ação de tal substância sobre sua mente.

O termo psiconauta remete ao “astronauta” da consciência e vem sendo usado como sinônimo daquele que utiliza um psicoativo ao mesmo tempo em que observa a ação de tal substância sobre sua mente.  O conceito foi criado pelo filósofo e romancista Ernest Jünger, amigo de Albert Hoffman, considerado o pai do LSD. Através de Hoffman, Jünger tem contato com a experiência psicodélica, fato que o marcou bastante. Ele tem vários escritos sobre o tema drogas, como Visita a Godenholm (ficção sobre uma experiência com LSD numa casa com amigos) e Drogas, embriaguez e outros temas (coletânea de texto sobre drogas, na qual aparece pela primeira vez a ideia de psiconauta).

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Junger lutou na primeira guerra mundial e ficcionalizou sua experiência em livro. Dizem que Hitler o admirava, mas que ele desprezava o regime e o führer. Arte de Rosenfeldtown

Por sua vez, o termo psicodélico tem origem na correspondência do psiquiatra Humphrey Osmond para o escritor e também psiconauta Aldous Huxley. É a convite de Osmand, que Huxley experimenta pela primeira vez a mescalina. Essa experiência resultou no ensaio As Portas da Percepção, obra que ajudou a popularizar os psicodélicos em círculos não médicos e até hoje é referência quando se fala de psiconáutica.  A ideia de psicodélico nasce dentro da academia, com relações fortes com a psicologia e psiquiatria, mas é também bastante poética e mítica. A origem etimológica é grega: “psico”, que significa “alma” ou “atividade mental”, somado ao sufixo “delo”, que significa evidenciar. Psicodélicos teriam o poder de levar a mente do homem para além do pensamento do homem. É a mente em si mesmo, ou a emancipação da mente do pensamento racional. Algo bem louco assim.

A psiconáutica, então, é um campo do conhecimento sobre drogas que está pautado na experiência de si. Tais saberes são importantes em vários aspectos. Especialmente na psicologia e na psiquiatria, a psiconáutica vem sido trabalhada junto ao paradigma de Redução de Danos (RD). A RD é uma estratégia de saúde voltada a diminuir danos causados pelo uso de drogas. Na clínica que trata pessoas com problemas de adição ou abuso de drogas, a RD é essencial para acolher aqueles que não querem ou não conseguem suprimir totalmente o uso dessas substâncias. A RD vai de encontro ao paradigma da abstinência, que parte do princípio que uma vida saudável é uma vida sem drogas. No uso de substâncias psicoativas que não está caracterizada uma relação de abuso ou adição, a RD é também absolutamente importante. A RD pode conectar-se com a psiconáutica porque é a partir da sua própria experiência que o usuário cria estratégias de autocuidado. Esses termos bonitos se revelam práticas cotidianas para muitas pessoas que buscam um uso responsável de psicoativos. Simplificando, aqueles que, a partir de uma experiência ruim (badtrip), começam a tomar novos cuidados com o uso, definitivamente estão implementando a Redução de Danos em suas vidas.

Aqueles que dão atenção especial aos efeitos das drogas na sua psiquê podem ser psiconautas. Não é só uma questão de sentir os efeitos sobre o corpo e entrar em um Estado Não-Ordinário de Consciência (Enoc). A psiconáutica é quase uma metodologia. Ou pelo menos pode ser usada como tal. No meu caso, ela se aproximou bastante da ideia de auto-etnografia. Alguns termos são utilizados de forma correlata à auto-etnografia, tais como: narrativas pessoais, narrativas do eu, narrativas da experiência pessoal, etnografia pessoal, etc. Quando essa escrita de si está acompanhada de estados alterados de consciência, conecta-se facilmente ao conceito de psiconauta. Dialogando com as teorias da autoetnografia, a psiconautica coloca o sujeito no centro da questão. Ele é objeto e observador, ao mesmo tempo; faz parte do objeto de pesquisa e o distanciamento é mínimo. A psiconáutica pode ser um método para pesquisa nas ciências sociais e foi na minha: uma exploração sobre a relação entre maconha e o território do Rio de Janeiro. A auto-etnografia ajudou-me a observar de forma sistemática as sensações produzidas pelas drogas, mas também pelo meu próprio estado mental/emocional (set) e pelo ambiente ao redor (setting). O resultado foi o artigo Sensações e território: uma auto-etnografia sobre o uso da maconha no Rio de Janeiro. O mote para o trabalho foi tentar explicar meus sentimentos e sensações em relação ao meu uso de maconha em determinados locais. Em certos lugares, me sinto segura, tranquila. Em outros, tensa, com medo, deslocada, culpada, oprimida. Por quê? Por que em alguns lugares o uso é marginalizado e em outros existe uma aura de liberação? Qual a relação entre territórios populares e de elite com esse uso pela cidade? Não existe reposta única, mas foi possível tecer algumas considerações sobre o tema. Acima de tudo, essa pesquisa demonstrou para mim mesma que a escrita de si é muito potente. O particular tornar-se público foi uma das principais pautas do movimento feminista nos anos 60. O privado ainda se sobrepõe ao coletivo em muitas instâncias. Por isso transgredir limites do particular e expor-se continua sendo necessário.

Fonte: Mundo Cogumelo

Entre as potências do olhar para si, está encarar a realidade cotidiana da militância (da diletância!). Olhando para mim e para meu próprio uso foi que cheguei ao tema do meu mestrado: drogas e cinema. Eu precisava que essa pesquisa tivesse a ver com algo presente em mim, que eu pudesse falar com alguma propriedade não-acadêmica. E que a pesquisa existisse fora da universidade. Foi nessa busca que conheci a Associação Psicodélica do Brasil e que entendi que a psiconáutica é também militância. E que a pesquisa (e a política) é a vida ao redor.

É preciso pautar, cada vez mais, que os usuários de drogas estejam à frente da criação de políticas públicas sobre drogas (e que as mulheres estejam à frente das políticas públicas sobre mulheres, que os negros estejam a frente da política pública sobre negros e assim por diante…). Esse protagonismo não é tão distante da realidade quanto pode parecer. A Junkiebond (liga dos junkies) é um movimento social de usuários de drogas que surge na Holanda, nos anos 1980. Buscou estabelecer um diálogo com o poder público sobre quais eram as melhores medidas para lidar com o uso de drogas injetáveis, que crescia na época, junto com casos de hepatite. A Junkiebond reivindicou e conseguiu o acesso a seringas e agulhas. Os usuários, adictos ou não, pela lógica da RD, são protagonistas no seu tratamento e nas suas práticas de uso. Conseqüentemente, precisamos lutar contra uma legislação que nos marginaliza e exclui. “Nada sobre nós sem a nossa participação”. Esse movimento de olhar cada vez mais profundamente para si também é um processo político, de se entender cidadão. A autonomia, o direito ao êxtase e à experimentação sobre meu próprio corpo é de onde parte a força para a militância pela regulamentação das substâncias psicoativas hoje criminalizadas. Vamos juntos!

 

Referências bibliográficas:

PIÑEIRO, J. Introducción Em: Psiconautas: exploradores de la conciencia. Madri: La Liebre del Marzo, 2000. p. 15-27

DOBLIN, Richard. Regulation of the Medical Use of Psychedelics and Marijuana. 2000. 446 f. Tese (Doutorado em filosofia no assunto de políticas públicas). The Committee on Higher Degrees in Public Policy. Harvard University, Cambridge, 2000. Disponível em: Acesso em 07/01/2017

CARNEIRO, Henrique. A odisséia psiconáutica: A História de um século e meio de pesquisas sobre plantas e substâncias psicoativas In LABATE, Beatriz Caiuby; GOULART, Sandra Lucia. O uso ritual das plantas de poder. Campinas: Mercado das Letras: Fapesp, 2005. 518 p. Disponível aqui.

MEDEIROS, Rafael Gil. Psiconáuticas na educação em saúde mental coletiva : promoção de saúde nos mundos das drogas. Trabalho de conclusão de especialização. Universidade Federal do Rio Grande do Sul.Porto Alegre, 2012. Disponível aqui.

Coletivo Desentorpecendo A Razão (DAR) (org.). Dichavando o poder: drogas e autonomia. São Paulo: Autonomia Literária, 2016.

 

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