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Redução de Danos

Primeiros socorros para experiências psicodélicas: Projeto Zendo 

Como ajudar alguém que está passando por uma experiência psicodélica difícil.

Os tópicos abaixo foram traduzidos e adaptados do artigo publicado por Sara Gael, Diretora de Redução de Danos do projeto Zendo. 

Experiências psicodélicas podem ser bastante complicadas. A própria natureza do estado psicodélico, com suas sensações ilimitadas, pode ser desorientadora, confusa e, às vezes, assustadora. As características que podem influenciar alguém a explorar psicodélicos – mudanças na percepção, consciência expandida e alterada – podem ser as mesmas que contribuem para uma experiência difícil, desafiando o que conhecemos sobre nós mesmos e sobre o universo.

Ajudar alguém que está tendo dificuldade em passar por uma experiência psicodélica é a oportunidade para transformar esta experiência potencialmente traumática em uma oportunidade de aprendizado e transformação. É o que tem feito, desde 2012, a equipe do Zendo, projeto desenvolvido pela Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos (MAPS) e que já ajudou mais de 1900 pessoas e treinou mais de 1500 nas práticas de aconselhamento e redução de danos psicodélicos.

Eles trabalham em festivais artísticos (lugares bastante propensos para utilização de drogas) criando um espaço seguro para aqueles que, de outra forma, poderiam ser hospitalizados ou presos, bem como casos menos extremos, como pessoas que procuram processar e dar sentido a sua experiência. Muitos são trazidos por  amigos, que não sabem como oferecer suporte. A maioria das pessoas vão ao Zendo porque eles se sentem de alguma forma inseguras, desorientadas, confusas ou assustadas.

Os tópicos abaixo, apesar de fazerem parte da missão da equipe Zendo, deveriam ser aprendidos por qualquer pessoa que use ou que conviva com quem use psicodélicos.

Compreendendo experiências psicodélicas difíceis

As substâncias psicodélicas permitem que o subconsciente – a parte da nossa mente que armazena nossas memórias reprimidas, características, medos e inseguranças – torne-se consciente. O subconsciente contém todos os aspectos que a sociedade nos ensinou a esconder, rejeitar ou suprimir e que acaba por ser visto como ameaçadores ou indesejáveis dentro da cultura padrão. Não é de se admirar que quando confrontados com essas partes de nós mesmos possamos experimentar medo ou desafio.

Porém,  ao ver o que suprimimos, temos a oportunidade de curar-nos. Quando os psicodélicos são usados em um ambiente cerimonial ou terapêutico, a dificuldade é esperada e até mesmo recebida como parte da experiência. Com certas substâncias como ayahuasca ou peyote, entende-se que enfrentar os medos e demônios internos revelados pela droga é uma marca registrada da experiência. Nas sessões de psicoterapia usando MDMA, acessar e processar memórias suprimidas é o mecanismo pelo qual os indivíduos podem curar-se de traumas.

Como os psicodélicos são amplificadores inespecíficos, a ingestão destas substâncias pode permitir expandir nossa visão de todos os aspectos possíveis da experiência humana, passando por todos os aspectos da alegria, êxtase,  indo do amor ao medo, confusão e ódio. Se a pessoa estiver em um ambiente de apoio livre de vergonha e julgamento, ela está mais propensa a se render a qualquer coisa que a droga lhe revele. Um dos desafios com ambientes recreativos como shows, festivais e festas é que esses ambientes podem ser altamente variados e imprevisíveis. Ajudar alguém a ter uma experiência psicodélica difícil significa criar um ambiente seguro para que a pessoa se renda à experiência.

O Projeto Zendo foi desenvolvido em resposta à necessidade de mais intervenções de compaixão para aqueles que optam por usar substâncias psicodélicas. Maneiras desatualizadas de trabalhar com essas experiências, como restrição ou sedação, são muitas vezes desnecessárias e podem causar danos. Essas abordagens são muitas vezes enraizadas em simples mal-entendidos, bem como em décadas de estigma e medo em torno de psicodélicos. O projeto busca, através da educação sobre psicodélicos e seus efeitos, ensinar a outros, incluindo pessoas da área da saúde e segurança, maneiras de responder com compaixão e ajudar a acalmar situações quando elas surgem.

Abaixo, estão listados 4 maneiras que o Projeto Zendo utiliza para ajudar uma pessoa a ter uma experiência psicodélica desafiadora, e que podem ser aplicadas por qualquer um:

  1. Crie um Espaço Seguro: Aborde com bondade e abertura, criando um ambiente de aceitação e compaixão. Deixe a pessoa saber que ela está em um lugar seguro e que sua experiência é bem-vinda. Deixe-os saber que tudo o que está acontecendo para eles emocionalmente ou mentalmente é OK e convide-os a compartilhar sua experiência, se eles quiserem. Se possível, mova-os para um local calmo com poucas entradas. Luzes brilhantes, música alta e muitas pessoas podem contribuir para a desorientação. Exclua as eventuais complicações médicas. Saiba ou receba treinamento com relação aos sinais e sintomas de uma emergência médica para que você possa ajudar a determinar se alguém precisa de cuidados médicos.
  2. Sinta, não guie: as palavras podem confundir ou travar o caminho. Use-as com moderação, a menos que o indivíduo deseje se envolver em um diálogo sobre seu processo. Ao invés de analisar sua experiência, escute com uma mente e coração abertos. Se estiver envolvido no diálogo, faça perguntas que ajudem a pessoa a aprofundar sua experiência. Ouça e fique curioso sobre sua realidade. Permita que o indivíduo tenha seus próprios insights ou conclusões. É bom fornecer sua perspectiva sobre sua experiência, mas concentre-se mais em ajudá-la a se descobrir, sem avançar no processo.
  3. Não desencoraje: Ajudar pessoa a se voltar para sua experiência e não para longe dela. Ela precisa confiar nela mesma e no processo e acreditar que tudo o que está aparecendo é algo sobre o qual ela está sendo convidada a aprender. Nunca descarte ou invalide a realidade percebida de alguém. Tente evitar apressar a experiência, tentar consertar o cenário ou encontrar uma solução. Em vez de fornecer respostas ou soluções, permaneça no lugar de não saber. Se a pessoa está se comportando de maneira destrutiva ou violenta, defina limites em torno do comportamento ao mesmo tempo em que valida as emoções por trás deste comportamento, como “eu entendo que você está com raiva. Você pode expressar sua raiva com suas palavras e emoções, não com violência”.
  4. Difícil não é o mesmo que ruim: Experiências de vida difíceis podem ser algumas das oportunidades de aprendizagem mais valiosas. Lembre a pessoa que sua experiência pode ser uma oportunidade para que ela olhe aspectos de si mesma que desejam sua atenção para serem melhorados.

A experiência desafiadora pode ser uma mensagem do nosso eu escondido buscando desenrolar vários emaranhados criados durante anos e que continuamente nos afetam sem conseguirmos ver com clareza.

Se você souber de grupos de apoio semelhantes, principalmente no Brasil, escreva seus nomes nos comentários para que possamos compartilhar mais sobre redução de danos.

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