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Erotismo

O Segredo do Coração dos Pervertidos (Parte 1)

Ilustração Leo Contos de San Pedro - O Segredo do Coração dos Pervertidos (Parte 1)

Anthony é um contador em San Pedro, trabalha das 8 às 18 e se liberta como um animal nas noites de quarta-feira.
A arte é de Leonardo Venâncio.

Vi na televisão que o mundo estava em crise. Outra vez, a economia liberal levou a gente à bancarrota. Sempre achei liberais bichos esquizofrênicos na faculdade. Esquizofrênicos tais quais os Marxistas de classe média. Meninos perfumados, com as mãos limpas. Nunca trabalharam na vida. Mas defendem a classe trabalhadora, seja lá o que eles entendem por isso. Não me entendam mal, tenho um carinho profundo pelo marxismo, assim como pelo cristianismo, mas o que fode é o fã-clube. Era de manhã e eu assistia o jornal das sete. Peguei o maço de cigarros sobre o criado-mudo, o último dos moicanos guardado lá dentro. Trabalho das 8 às 18 num escritório de contabilidade. Depois das 18 é que a vida acontece, eu digo pra mim todos os dias de manhã.

Joguei fora os pinos guardados no bolso do paletó da noite anterior. Um homem que trabalha de 8 as 18 só consegue se divertir usando métodos não-ortodoxos pra se manter acordado. Um dos pinos ainda tinha uma quantidade razoável. Guardei de volta no bolso e me olhei no espelho. Precisava de um corte de cabelo e uma boa aparada na barba. Ia ficando desleixado. Das 8 às 18 ninguém permite o desleixo. Depois das 18 é que a vida acontece. É assim. Eu vivo uma vida durante o dia, outra quando o sol se põe. Quando é lua cheia, então… Sou um monstro. Meus desejos só são satisfeitos depois das 18. Meu analista acredita que tive algum trauma na infância, meu superego não foi bem formado. Sou um animal quando me entrego às delícias da carne. Delícias da carne? Que jeito mais tosco de dizer que sou um animal com fetiches tão horríveis que não posso sequer abrir a boca pra contar pras outras pessoas do que eu gosto mesmo.

Nem as minhas namoradas sabem dessas coisas. Namoro é sempre uma convenção social, meus desejos eu mantenho aplicado em outros lugares, é melhor assim. Namoradas vem e também vão. Se eu não me protejo, logo qualquer um vai saber dos meus hábitos noturnos.

Existe alguma coisa nessa sociedade que proíbe desejos mais profundos, mais intensos. Há um excesso de sobriedade e atitude blasé. Querem todos serem pessoas polidas, educadas, civilizadas. Fetiches são reprimidos, viram tabus. Quem nunca gostou de um tapa ou outro? Sexo é feito de impulsos animais, por que comedir? Essas pessoas me assustam. Porque, como eu disse, mesmo os mais liberais ainda são esquizofrênicos sem contato com a realidade. Não sabem o que é foder de verdade. Entediam-se com papai-mamãe e sexo anal, como se o segundo já fosse uma coisa lá muito surpreendente. Mas nada disso é sobre mim, eu só existo das 8 às 18, o que acontece depois das 18 é qualquer outra coisa que não controlo. É depois das 18 que a vida acontece.

Quarta-feira. Sete e meia, moro alguns quilômetros do escritório. Pego o metrô e duas estações depois, estou lá. Quinze minutos, já contei. Acendi uma vela, no meu altar particular, não sou religioso. Mas gosto de determinados hábitos. Rezar para meus santos, servir um gole de cerveja preta. Um copo de aguardente. Pedir proteção nunca é demais.

Quarta-feira é um dia morto no escritório. Toda semana. O chefe nunca aparece. Quando o gato sai, os ratos fazem a festa. Somos quatro: Júlio, Charles, Oswaldo e eu, Anthony. Na faculdade ganhei o apelido de Tutsi. Tutsis são um povo africano da região de Ruanda, foram massacrados pelos rivais Hutus em 1994. Eu não lembro a razão, mas não existe muitas razões para rapazes brancos colocarem apelidos racistas em um preto. Na Universidade não é diferente. O apelido ficou. Anthony Tutsi. Sou contador em escritório no centro de San Pedro, podem me chamar até Corno, se quiserem.

Jogamos Poker todas as quartas-feira à tarde. Sempre na sala de trás, onde ninguém nos vê. Durante a manhã, sempre há um ou outro cliente que passa. De resto, Quarta-feira é um dia morto. Guardamos sempre uma garrafa de conhaque no almoxarifado. O chefe não chega nem perto do almoxarifado, nunca vai saber que temos conhaque, fichas e amendoin japonês guardado lá.

Quarta-feira. O melhor dia da minha rotina. O dia em que a vida, que só acontece depois das 18. Começa a funcionar meio-dia. Jogamos a tarde toda, trancados na sala dos fundos. Às 18, fechamos o escritório e seguimos cada qual para sua vida. Quarta-feira, bebemos juntos depois do Poker. Às 21, todos os bons rapazes se recolhem e eu acendo o pavil do rojão. Às 23 é quando as coisas estouram.

Fetiches são mais comuns do que a maior parte das pessoas pensam. Existem casas especializadas em todos os bairros, em todas as cidades. Em todos os lugares, sempre existem clubes discretos que se propõe a satisfazer os fetiches que são reprimidos durante o dia. Nesses clubes encontramos de tudo, todas as classes sociais são reprimidas sexualmente. Você vai encontrar policiais, juízes e delegados. Vai encontrar também médicos, dentistas, advogados e engenheiros. Vai encontrar políticos, esses mais difíceis, porque frequentam lugares muito específicos e normalmente são restritos ao extremo. Mas encontrei o prefeito de San Pedro, certa vez, mamando leite nos peitos de uma prostituta. Eu digo: existem fetiches estranhos. Mas nada que nós não possamos passar despercebido. O prefeito, quando se deu conta de que eu o havia visto, me enviou uma garrafa de uísque bourbon e uma caixa de charutos de qualidade mediana. Com uma carta. Não dizia nada concreto, só um monte de abstratices. Coisas como discrição e silêncio. Eu entendi o recado, não quero expor ninguém tanto quanto não quero ser exposto. Mas agora eu mudei de ideia e acabei expondo-o, não foi? Droga. Foda-se, também estou me expondo aqui, não é? Então ele que se foda com seu uísque e sua caixa de charutos.

Na Quarta-feira, vou ao mesmo lugar sempre. Salvo quando não funcionam, por razões legais ou de falta de suborno. Uma casa de fetiches nunca dura mais do que dois anos, sempre derrubam e há um escarcéu público. Com exceção dos dois mais antigos de San Pedro, que já duram há mais de 10 anos. Só mudam de lugar, de tempos em tempos, mudam as pessoas, também. Na quarta-feira, tem esse lugar específico, onde eu pratico meus desejos sexuais de forma livre. O público é majoritariamente masculino, mas não seria justo se eu não dissesse que mulheres também frequentam esses lugares. Mulheres são mais reprimidas que homens, nesse sentido. Não podem nem se masturbar, ou falar de masturbação, que já são estigmatizadas. Conheço várias que preferem fingir aceitar a repressão e extravazam nos Muquifos que eu frequento. Cruzamos na rua e sorrimos, nos conhecemos, mas nunca nos falamos. Empresárias de sucesso, outras casadas com homens importantes. Alguns casais importantes, inclusive, frequentam juntos o Poleiro do Galo. Isso que é amor, não é? Não, isso não tem nada a ver com Amor. Nesses lugares, como em tradições em que tiramos os sapatos antes de entrar, deixamos o Amor e seus significados do lado de fora. Amor não entra, é o lema.

Nadja é a mulher dos meus sonhos. Nas quartas feiras ela é quem cuida de mim. Vocês nunca vão ver uma mulher como essa andando na rua, às sete da manhã, num vestido rosa. Indo ou voltando de algum lugar. Ela hiberna o dia inteiro. Como um bicho que se entoca e só aparece à noite. Sempre começamos com o ritual mágico de submissão. É um jogo, uma brincadeira. É o que eu digo: sexo não passa de uma brincadeira. E, sendo assim, a diversão é que importa, não é? Eu sempre me submeto. Sou um homem submisso às pernas daquela deusa, as coxas mais gostosas que eu encontrei na vida. Depois do primeiro ritual, usamos as velas. Cera quente é uma sensação orgásmica fodida. Vocês todos deviam experimentar. Peles mais claras são mais sensíveis, mas a minha é escura. Resisto, fico excitado. Provavelmente gozaria, se quisesse, só com as velas. Mas as velas ainda fazem parte do ritual de início. Voltamos à submissão. E à tortura. Chicotes variados, unhas rasgando minhas costas.

Nadja tem uma profissão? Sim. Talvez tenha. Mas Nadja não existe à noite. Nadja é o que fica lá fora, depois das 18 é que as coisas acontecem e os monstros saem. O sexo é um reino de delícias desconhecidas. Um mundo exploratório.

Não sabemos o que pode ser feito até fazermos. E normalmente é bom. Normalmente é gostoso.  Nadja, se cansa – eventualmente – e troca os papéis. Se submete de forma a me colocar no posto de Rei. Ela é daquelas que gostam de apanhar, não é um tapa ou dois. Ela gosta tapas fortes e mordidas e violência real. Contei sobre ela ao meu analista, ele riu e tentou desviar o assunto. Mas acho que ela também sofreu algum trauma de infância. Violência sempre me agradou. Me remete à um tipo de autoridade que eu nunca conheci porque não sou pai. Talvez essa ideia de parenthood sem bater, vai gerar crianças que não conhecem os prazeres da dor. Se tudo o que aprendemos sobre sexualidade está concentrado ali, nas três fases – oral, anal e fálica – como é que essas crianças vão aprender sobre o sexo real, e não essa mentira de filmes pornô, que – aos meus olhos sado-maso – são quase um sexo infantil.

Esse tipo de Sexo é ficção. Ninguém conhece os exageros do sexo sem experimentar por outras vias.

Às três da manhã, depois de outros dois pinos de cocaína. Volto andando até em casa. Extasiado. Nadja se entoca outra vez. Talvez durma, talvez tenha outro trabalho durante o dia. Não sei. Não quero conhecer a Nadja que fica, porta a fora, do Poleiro do Galo. Assim como, creio, não passo de um zé ruela para Nadja quando sou apenas Anthony Tutsi, o contador.

 

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