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Literatura

Entre a forra e a forca não há saída

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Eu não era mais que um meio homem naqueles tempos. Lembro-me de cada detalhe. As gotas pareciam lágrimas escorrendo na janela de vidro do quarto. O tempo era um presságio, assim como cada trovão era um berro e cada raio uma tentativa estúpida de luz para um dia destinado a ser sombrio. Eu estava afogado com tanta água caindo e com tanto vinho entrando, e mesmo com tanto liquido por todos os lados eu me sentia seco. Eu sentia a morte rondando cada átomo daquele dia maldito. Dave Van Ronk lamentava nos auto falantes velhos da sala. Sua voz fanhamente folk se transformara em zumbido da natureza e se encaixava aos intervalos de janelas batendo ao vento e aos roncos retumbantes das marteladas dos céus. Aquela manhã estava tão apática que a bebida descia fria na garganta e fui incapaz de sentir o amor de um bela mulher, aquilo que desde a criação fora quente e macio estava duro e sem vida. Estava morto.

Da porta do meu quarto, ainda enrolado entre pernas e lençóis coloridos pelo tempo, de vermelho tinto à marrom Bourbon, eu vejo pela fresta da porta aquele lindo corpo descamisado, de olhos redondamente azuis e encantados. Braços firmes, copo em punho, cigarro a boca que tampava um sorriso inesquecível de criança malandra. Assim cada golada parecia a ultima, com atitude impiedosa e decidida molhava seu corpo de bebida.

Os uivantes barulhos da casa e do mundo não me permitiram ouvir todas as palavras, e mesmo que permitissem não sei qual foi a ultima vez que criatura alguma do mundo conseguiu ouvir todas as palavras.

Dizia a voz conhecida:

— Caminhei por boa parte até agora. E te afirmo, são luzes artificiais e caixas de som que iluminam este mundo soturno e silencioso. Mesmo em dias distintos dos de hoje, ainda consigo sentir o frio entrando pela barra das calças, congelando meus dedos, mesmo na areia quente.

Não pude distinguir a quem se dirigia aquele olhar profundo e interminável, e a profundidade da minha cama não me permitia intervir, estava preso de mais em minha própria bolha existencial para qualquer coisa. Mas aquela voz doce continuava em palestra.

— Sabe garoto, a estrada é longa, lenta e repetitiva. Guarde isso para não se perder. A estrada é cheia de gente perdida, e fodida. Eles tentarão te enganar, tentarão fingir que sabem onde está. Mas não sabem. As bebidas vão te fazer acreditar que esquentam o corpo, mas elas esfriam a alma. Seja gentil sempre, estamos todos perdidos de razão e sedentos de sentido. Nada mais além disso.

Não pude ouvir a segunda voz do quarto. Não sei se por monólogo esquizofrênico ou pela incapacidade de ouvir o que não se refere a mim.

A partir dali não pude ouvir nada mais. O frio mais uma vez invadia meu corpo, desmantelando meu coração impotente, as lágrimas nas janelas da casa passaram a ser lágrimas nas janelas da alma. Tentava levantar da cama, mas tudo que consegui foi ver meu copo cair ao chão. Um trovão segundos depois parecia ter sido uma campainha.

Fechei os olhos e meu corpo ficou rijo da recuada em resposta ao som titânico. De volta à realidade, um sombra balançante dava lugar ao corpo, o estrondo deu lugar a cinco palavras repetidas do vinil riscado: “poor boy, i’ve been all around this world.”

Talvez não devêssemos ter aberto os olhos aquela manhã.

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In Honorem: 1992 – 2017 †
Vade in pacem amicum.

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