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Ayahuasca

Ayahuasca: da expansão da mente à psicose

Como a utilização da Ayahuasca pode expandir a mente ou criar episódios psicóticos.

Ayahuasca é uma substância que, conforme adeptos, eleva a consciência em relação ao mundo e nossas relações nele, mas, o fato de a medicina ainda estar engatinhando quanto à utilização de alucinógenos com fins terapêuticos faz com que se crie diversas especulações acerca do que o ser humano é capaz ou não, desconsiderando o histórico de cada indivíduo para aceitação de substâncias psicodélicas. Escrevi em meus artigos anteriores sobre a reação química que acontece no cérebro com a utilização de psicoativos e fica claro que a mente sã abre muitas portas para o auto descobrimento, mas uma mente “perturbada” precisa ir a passos de bebê.

Existem muitas histórias de pessoas que teriam “enlouquecido” ou mudado negativamente após o uso de substâncias alucinógenas, uma delas sendo o DMT, composto encontrado na ayahuasca, bebida alucinógena preparada com o caule do caapi (Banisteriopsis caapi) e folhas de chacrona (Psychotria viridis). Na internet, você pode encontrar tanto relatos assustadores, de pessoas que sentiram muito medo, quanto relatos iluminadores e super positivos. Não obstante, em encontros em que se utiliza a ayahuasca, é igualmente comum haver pessoas que se batem, choram, contorcem o corpo em alusão a uma agonia particular e muito íntima. Nestes encontros, muitos precisam ser acalmadas e confortados para retornarem a um estado de relaxamento.

Mas o que acontece, afinal, no corpo, quando se ingere ayahuasca? Você precisa ficar com medo de nunca mais voltar? 

Ayahuasca é uma mistura de alucinógenos tradicionalmente usada para rituais e com propósito terapêutico proveniente da Amazônia. É rico em alucinógenos triptamina Dimetiltriptamina (DMT), que atua como um agonista (capaz de se ligar a um receptor celular e ativá-lo para provocar uma resposta biológica) da serotonina 5-HT2A. Este mecanismo de ação é semelhante a outros compostos, tais como a dietilamida do ácido lisérgico (LSD) e a psilocibina. Geralmente, os relatos de quem usa com certa frequência ou já usou são muito positivos e a substância parece “limpar” o corpo, além de diversos benefícios, como parar dependência química que o usuário possa ter com bebida ou cigarro, por exemplo, autoconhecimento, sentimento de união com a natureza e entendimento de questões pessoais.

Para quem quiser entender melhor a reação química, a palestra abaixo explica didaticamente a substância, seus benefícios e as últimas pesquisas:

Durante os anos 50 e 70, quando o uso dos alucinógenos como LSD e psilocibina foi permitido tanto em clínicas quanto em experimentos, uma das maiores preocupações com o uso desses compostos foi a sua possível associação com reações psicóticas prolongadas. No entanto, estudos a partir desse momento têm relatado que a incidência de tais casos é rara em voluntários saudáveis.

No artigo Ayahuasca, dimetiltriptamina e Psicose: uma revisão sistemática dos estudos humanos, os doutores Rafael G. dos Santos, José Carlos Bouso e Jaime E. C. Hallak fazem uma revisão de relatos de casos publicados ao longo dos anos, descrevendo episódios psicóticos associados com ayahuasca e ingestão de DMT. Os estudos laboratoriais envolvendo administração oral de doses únicas para voluntários saudáveis mostraram que este alucinógeno induz à introspecção, aumento de memórias autobiográficas, bom humor e bem-estar. Esses estudos também sugerem que a ayahuasca tem tolerabilidade aceitável, com náuseas e vômitos como as reações adversas mais frequentes, mas não obrigatórias. Nos últimos anos também se concluiu que reações adversas a longo prazo não inclui aumento nos déficits cognitivos ou psicopatologia.

A possível relação entre ayahuasca e as experiências psicóticas são mal compreendidas e dentro destes estudos, reações disfóricas (desconforto, ansiedade) transitórias (inferior à 6 horas) e, possivelmente, características psicóticas, podem ocorrer, como acontece com outros alucinógenos. No entanto, estes casos geralmente são raros e transitórios, com utilização de apoio para redução do sofrimento.

De acordo com a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais de 2013, distúrbios induzidos pelo alucinógeno estão entre os mais raros de todos os transtornos relacionados ao uso de substâncias alucinógenas. Além disso, eles são considerados uma das classes menos tóxicas de drogas e estudos recentes não encontraram uma associação significativa entre o uso vitalício de alucinógenos clássicos (LSD, psilocibina, mescalina) e aumento nos problemas de saúde mental, incluindo psicose e casos de manias.

De fato, um dos relatos do artigo citado acima menciona um voluntário que experimentou uma intensa e transitória (em torno de 20 minutos) reação disfórica com desorientação, ansiedade e sentimentos de suspeita e ameaça, que foi efetivamente tratado apenas com suporte verbal, desaparecendo completamente após o tempo esperado de ação da ayahuasca (inferior à 6 horas), sem a necessidade de qualquer tipo de intervenção médica. Da mesma forma, a ingestão em maior quantidade em condições controladas, como em rituais, geralmente não é associado com uma maior incidência de transtornos psicóticos.

Isso não significa que um suporte mais intenso não seja necessário; outros relatos neste mesmo artigo também trazem usuários que precisaram ser medicados para, gradualmente, voltarem ao seu estado inicial. Um relato, especificamente, cita um voluntário que foi medicado durante dois meses para acabar com os episódios psicóticos. Estes casos, aparentemente, estão associados a vários fatores além da ingestão da subtância, como história pessoal ou familiar de psicose, transtorno bipolar ou uso concomitante de outras drogas. Portanto, esses indivíduos teriam um perfil diferente daqueles que participam de estudos controlados, onde uma triagem psiquiátrica é realizada e o uso de outras drogas não é permitido. Em conjunto, esses resultados sugerem que a incidência de episódios psicóticos associados à ayahuasca é um fenômeno raro e estas raras instâncias aparecem associadas a  características anteriores dos indivíduos. Logo, uma pessoa com histórico de esquizofrenia, depressão ou mania, deveria evitar a ingestão da ayahuasca – ou mesmo do seu composto, DMT – sem supervisão médica.

Apesar disso, de maneira geral, a literatura aponta a ayuhasca como uma substância segura.

Neste link, você pode conferir alguns relatos – em inglês – positivos e negativos de pessoas que viajaram o mundo para poder passar pela experiência de usar ayahuasca. Nos áudios, os defensores seguem considerando-a um remédio para a mente, corpo e espírito; outros acham que beber ayahuasca provou ser perigoso. Qual a sua experiência?

Arte em destaque: Luis Tamani Amasifuen

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