OCB C Novembro
Erotismo

Animal Neurótico

Sexta-feira, onze e meia da noite. Ela coloca um disco de uma banda francesa de pop psicodélico. Meu corpo suado na cama pede um cigarro. Puxo o cinzeiro e acendo um dos cigarros dela. O pau semi-morto e ainda molhado. Ela deixa a janela semi-aberta enquanto trocamos carinhos pós-sexo. Quanto nos conhecemos? Pouco. Quanto temos de intimidade? Muita. Contradição é o ponto alto dessa relação. Corpos nus, deitados um do lado do outro, com uma naturalidade que o mundo ansioso não permitiria, em ocasiões normais. Sexo casual? Talvez. Eu não gosto, mas ela insiste. Olho o celular e vejo várias proposições pra sair à noite. Quem te convida pra sair à meia-noite? Quem não conseguiu outra coisa e, por acaso, lembrou de você como uma opção. Sou uma opção sempre disponível. Sou o rolê seguro de muitas pessoas, eu acho. Não sei porquê. Talvez pela mistura de perversidade e carinho — nunca, nem no sexo casual mais aleatório deixo o carinho de lado. Isso faz muita gente crer que sou o proto-namorado. Aquele que você chama à meia-noite de sexta-feira.

– Você é requisitado, em? — Ela diz, como que simulando ciúmes. Talvez sinta mesmo, mas eu duvido. Ela me vê como um demônio, como um deus Marte louco. Sou apaixonado por ela, de verdade, mas ela não quer saber de paixão. — É tudo questão de timing, meu amor. — Ela sempre diz isso. Eu aceito, é questão de timing, tempo, disponibilidade, vontade. Tudo pode ser resumido nisso. Desligo o celular por educação e esqueço dos outros rolês. Faz tempo que não saio com outra pessoa, não faço ideia da razão. Paixão, dizem, deixa a gente burro — ela não abriu mão dos outros. Apesar do ciúme, eu não me importo. Sigo feliz, tenho outras coisas além do sexo.

– Nada de interessante nas mensagens. As pessoas que te chamam pra sair meia-noite de sexta-feira são aquelas que só lembram de você quando não conseguem o que queriam. Levaram um bolo, estão deprimidas em casa, foram ignoradas por alguém, são essas pessoas que te mandam mensagens à meia-noite.

Ela morde meu ombro, ela sempre morde. Adoro as mordidas dela, termino o cigarro olhando o teto. Não sei porque razão eu estou ali, talvez porque ela me dê prioridade, ou algo do tipo. Freud diz que o princípio de realidade sempre supera o princípio de prazer. Pós-sexo sempre lembro que: amanhã, ou depois, ela vai estar com outro. Com um dos seus amantes menos importantes. A vaidade me leva a perguntar: — Você pensa em mim, alguma vez, quando está com eles? — ela sempre diz que não. Eu queria que dissesse que pensa. Mas ela não vai dizer, mesmo que pense, ela nunca vai admitir. Eu sou como um predador, aos olhos dela, enquanto que eu me vejo como um animal domesticado. Subjetividade, não é? Sempre há um abismo entre como nos vemos e como os outros nos vêem.

– Seu corpo é tão quente — ela passa a mão pelo meu peito — Você sempre parece que tá com febre. — E eu sempre estou, mesmo. Meu sangue latino ferve sempre. Estou sempre num ponto de ebulição constante. — Você é o cara mais quente que eu já senti em mim.

Que lisonja. Levanto e vou na cozinha, só de cueca. Pego meio copo de conhaque e volto. — O segredo do calor é esse, gatinha. Conhaque ou Campari. É assim que a gente mantém o motor funcionando esse tempo todo.

Ela me agarra pela cintura e morde a minha barriga enquanto eu bebo. Ela bebe o outro gole que resta do copo e massageia meu pau por cima da cueca. Não tenho tesão, não agora. No fundo, eu tô morrendo de ciúmes. Morro de ciúmes dela. Por quê? Eu sempre me pergunto o porquê das coisas. Mas não faz sentido. Talvez eu tenha uma obsessão maluca de possuir essa mulher e aí vou casar com ela e vamos fugir. Talvez eu vá simplesmente conquistar e então o interesse acaba. Desejo é uma roleta russa.

– O que você quer de mim? — Ela sabe, mas insiste em perguntar.

– Quero que você seja minha.

– Mas eu sou, agora. Amanhã talvez eu seja de outro.

Ela ri. Sabe me fazer ciúmes, meu rosto muda involuntariamente e ela se diverte com isso. Eu acendo outro cigarro, ouvimos a banda francesa. Ela me diz que se chama Air, o disco é Moon Safari. Minha boca desce até os peitos dela. Hiper-sensíveis, ela se contorce. A mão se esconde entre as pernas, ela agita os dedos em si. Aquilo me excita — mesmo no pior humor ciumento. Nossas bocas se misturam, a boca dela encaixa na minha como nectarina.

Transamos de novo. Ela me diz que ultimamente tem sido difícil gozar. — Preciso me concentrar demais — ela diz. Eu deito e a gente continua trocando carícias e minha boca insiste em descer pela barriga. A lingua entre as pernas e eu fico louco, ela não poupa mel. Derrama tudo o que pode na minha boca.

Sábado. Três horas da manhã. Ela deita no meu ombro, brinca com os pelos do meu peito. — Adoro ficar assim, contigo. Seu corpo é tão quente… já disse isso né? — Eu não me importo que ela diga várias vezes. Fumo outro cigarro e ficamos abraçados na madrugada. Ela olha pra mim, sem tirar a cabeça do meu ombro. — Vocês homens são muito possessivos. Mas eu adoro como você sente ciúmes…

– Eu sou louco contigo. Meu ciúme é uma parte do que acontece por baixo de tudo. Por baixo da consciência.

– E o que acontece por cima dela?

– Pouco me importa minha consciência. O homem é um animal neurótico. Me interessa mais o que acontece debaixo do ego frágil. Sou apaixonado pelas minhas perversões.

 

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